Eu vinha do trabalho — lido com dinheiro — e caminhava aquele quilômetro e pouco até a estação de trem. Eu estava na pressa, no modo automático. E, no meio da pressa, sempre me atravessa uma dor quando vejo os carrinhos de papelão cruzando a cidade, gente subindo calçada, carregando peso que eu não sei de onde tiraria força. Quando é uma senhorinha, o coração da gente chega a arder: de onde vem tanta resistência?
Foi assim que ela me parou, com o carrinho de papelão ao lado: “Moço, você pode me pagar um marmitex?” Eu nem sei em que frequência eu estava. Respondi sem pensar: “Agora não dá, tô com pressa.” Desvencilhei e segui. Mas não dei três passos e aquela vozinha acendeu por dentro: “Por que que não dá?”

Parei seco. Voltei. Ela já tinha abordado outra pessoa, que estava visivelmente incomodada, quase cedendo, quase indo embora. Cheguei e disse: “Pode deixar, eu pago o marmitex dela.” “Sério, moço? Vai mesmo?” “Vou. Deixa comigo.”
Paguei. Ela sorriu como quem recebe vida. “Hoje eu não vou dormir com fome.” Aquilo me atravessou. Olhei ao redor, olhei para ela. O simples valeu ouro. Perguntei: “E pra beber? A senhora não pediu nada.” Ela, tímida: “Não, já tô abusando demais.” “Pode pedir o que quiser.” “Então… eu queria Fanta uva. Eu gosto de Fanta uva.” Meu coração apertou. Uma refeição. Um refrigerante de uva. E tanta gratidão.
Eu gosto de frases, da verdade prática, do que a gente carrega pro dia a dia. E sei: se não fosse o Espírito Santo, eu teria passado batido — batidaço — sem prestar atenção. A Escritura diz que Jesus sabe o que há no homem. Eu tinha lido em Mateus 10: Ele envia a pregar e, ao mesmo tempo, alerta: cuidado com o homem. Penso nesse “homem” sem misericórdia, sem o olhar voltado ao outro. Não é sobre dar dinheiro a todo mundo. Não é sobre parar em todos os sinais. Mas há momentos que são especiais. Você sabe quando é Deus tocando.
Já vi gente na internet fazendo ações simples e diretas: encontra alguém vendendo bala, pergunta a história, entra no carro, vai até a casa, compra duas, três cestas, ajuda com o que dá. Alguns criticam, outros duvidam das intenções. Eu prefiro pensar: se alguém foi alcançado, não sou eu quem vai atirar a primeira pedra. O que me importa aqui é o olhar. A gente perde o olhar.
No corre-corre, a gente se blinda: “Não dá pra ajudar todo mundo.” É verdade. Mas Jesus olhou a multidão e se compadeceu porque estavam cansadas e exaustas. Há muita gente exausta que não precisa de muito. E, às vezes, o pouco que precisa está ao alcance da nossa mão — e da nossa pressa. Só que ficamos com uma trave nos olhos, indiferentes, automatizados. Até que a voz sussurra: “Por que que não dá?”
Talvez você veja alguém na porta do mercado e pense: “No fim do dia sai com mais compra que eu.” Pode ser. Pode não ser. Mas o que te custa um chocolate para a criança que está ali? Crescer com a lembrança de pedir na rua pesa. Machuca. Eu não estou aqui para resolver todos os dilemas, só para contar que, por distração e pressa, eu quase perdi um encontro simples — e santo.
Um marmitex. Uma Fanta uva. Uma alegria que reacendeu em mim a compaixão que eu vinha deixando escorrer pelas frestas do cotidiano. Que eu viva com um novo olhar, sintonizado na frequência do Espírito Santo. E que, quando o Pai sussurrar “Por que não dá?”, eu tenha a coragem de voltar e amar. Amém.
