Escrevo para quem talvez conheça o silêncio de um jejum e o ruído das tentações que às vezes vêm logo depois. Eu também precisei aprender, na prática, que jejuar não é só abster-se de algo: é vigiar o coração, especialmente quando a mesa das provas é posta ao final do dia.
Quando eu era casada, meu ex-marido e eu combinávamos uma senha para o jejum, um jeito discreto de lembrar que aquele tempo era entre nós e Deus. Aprendi assim que o inimigo não lê pensamentos, mas escuta o que a gente fala. Por isso o secreto importa tanto: há orações que nós proclamamos em voz alta — e bendito seja Deus por isso — e há orações que são só entre eu e Ele, no quarto, no silêncio, onde o Pai vê e recompensa. Nossa boca, eu descobri, é como uma porteira: que ela se abra para abençoar, não para dar espaço ao mal.

Naquela época eu morava em Jequié, numa casa simples, com piso de cimento antigo — parte vermelha, parte verde. Eu encerava aquele chão com cera vermelha até brilhar. No começo, sem enceradeira, no esforço do corpo; depois, quando meu ex comprou uma, tudo ficou ainda mais lustroso. E foi aí que, sem perceber, dei a um piso o lugar que pertencia a Deus. Eu não chamava aquilo de idolatria. Mas era.
Quase sempre acontecia a mesma cena: eu terminava um jejum, pronta para entregar ao Senhor, e algo quebrava, algo caía, algo sujava o chão. Meu filho, criança, derramava um copo, um prato, um pedaço de fruta. E eu, cega de zelo pelo piso, gritava… e cheguei a bater no meu menino por causa daquilo. Até que um dia eu parei, cansada de repetir o mesmo erro, e disse: “Meu Deus, isso não está certo.” No íntimo, Deus falou comigo — creio que um anjo me corrigiu naquele instante: “Depois do jejum, você está judiando do seu filho, porque está dando mais valor ao chão do que ao Deus Todo-Poderoso.” Doeu. Mas foi a verdade que me libertou.
Decidi vigiar. Fiz algo de propósito: no dia seguinte, anunciei em voz alta que eu jejuaria. Eu sabia que o inimigo escuta o que dizemos e quis confrontar aquela armadilha. Cumpri o jejum. Ao final, preparei uma vitamina para o meu filho. Antes que ele levasse o copo à boca, o vidro escorregou. Caiu no chão. A mancha vermelha sobre o vermelho encerado pareceu gritar comigo. Mas, desta vez, foi diferente: bati o pé e declarei em voz firme: “Te peguei, Satanás! A partir de hoje você não vai me entender nem roubar a minha paz. Esta casa é do Senhor Jesus. Eu te ordeno: bata em retirada, agora!” Comecei a cantar, abracei meu filho, beijei-o, profetizei bênçãos sobre a vida dele e, sorrindo, limpei o chão. Naquele dia eu venci.
Depois disso enxerguei o que meus olhos não queriam admitir: eu havia transformado um cuidado legítimo em trono. Eu chegava a deixar um bilhete na porta pedindo para tirar os sapatos antes de entrar. Meu ex-marido, coitado, chegava cansado e precisava descalçar-se do lado de fora para não “profanar” o brilho do piso. Que contradição: honrar coisas e ferir pessoas; zelar pela casa e descuidar do coração. Nunca mais dei ao chão o primeiro lugar. Pertence a Deus.
Idolatria oculta é isso: quando algo bom toma o lugar do Melhor. Às vezes é um piso, às vezes é a aparência, a ordem, o trabalho, o celular, o ministério, a reputação — qualquer coisa que, sem percebermos, comece a governar nossas reações. O jejum revela quem manda. Não foi diferente com Jesus: Ele jejuou e, faminto, foi tentado. O inimigo ofereceu pão e atalhos. Depois do jejum vêm bandejas. É aí que precisamos do discernimento do Alto para responder: “Em nome de Jesus, eu te rejeito. A honra e a glória pertencem ao Senhor.”
Aprendi também sobre o segredo e a boca. Se Deus me entrega algo para o secreto, eu guardo. Se Ele me chama a proclamar, eu abençoo. A Palavra na nossa boca tem peso de vida. Que nossas palavras fechem a porteira às ciladas e abram caminho para a graça.
Escrevo isto para alcançar você que talvez tenha se afastado do devocional, da oração, do jejum, da comunhão com a igreja. Volte. Não é tarde. O Pai espera por você no secreto e também no ajuntamento. Não permita que ofensas, cansaço, ocupações ou um “chão brilhante” lhe roubem do primeiro amor. Jesus continua chamando pelo seu nome. E, se a tentação vier logo depois que você entregar um jejum, não se escandalize: vigie e permaneça. Resista firme. Maior é Deus que está conosco.
Hoje eu renuncio a todo ídolo disfarçado que tente ocupar o trono que é de Cristo no meu coração e no meu lar. Abençoo meus filhos, minha casa, meus passos. Declaro, mais uma vez: toda a honra e toda a glória pertencem ao Senhor Jesus. E, se o inimigo tentar, não encontrará lugar. Que a paz do Senhor encha a sua casa como encheu a minha. Amém.
