Cresci ouvindo que a nossa geração foi menos conservadora que a dos nossos pais, e a dos nossos pais, menos que a dos nossos avós. Mesmo assim, havia uma regra silenciosa que nos guiava: o bom senso. Na escola, além das matérias, aprendíamos educação moral e cívica; conhecíamos os símbolos da nação e, nas coisas pequenas, tínhamos as “palavrinhas mágicas”: por favor, com licença, obrigado. Não era só etiqueta: era um jeito simples de lembrar que o outro existe e merece respeito.
Com o tempo, esse filtro foi se perdendo. A Bíblia me corta por dentro quando diz: “se eu me julgasse a mim mesmo, não seria condenado”. Falta-nos esse autoexame. Não falo apenas de salvação eterna, mas do chão do cotidiano: falar, vestir, reagir, conviver. Em tudo, esquecemos de nos avaliar diante de Deus e do próximo.

Outro dia, vi a cena de um segurança de shopping barrando a entrada de uma moça porque a roupa dela estava curta demais para aquele ambiente. A câmera registrou; ela ergueu o celular e, em vez de ponderar, partiu para ofensas. Em outra ocasião, uma mulher perdeu a paciência numa escola, gritou com alunos, e quando o segurança tentou acalmar, ela o humilhou diante de todos. O roteiro se repete: a lente do telefone levanta como um escudo, e a razão parece pertencer a quem mais grita, não a quem mais pesa suas atitudes.
Perdemos filtro. Perdemos paciência. Perdemos o hábito de julgar a nós mesmos. A velha lei do bom senso — aquela que nem precisaria ter sido escrita — ensina que, quanto mais público for o lugar, mais conservador deve ser o meu comportamento. Em espaços com muitas pessoas, eu cuido das palavras, da roupa, do tom de voz; olho com carinho para os idosos, para as crianças; respeito o ambiente que é de todos.
Hoje, porém, liberdade foi confundida com “faço o que quero, onde quiser”. Mas isso não é liberdade; é falta de formação, falta de educação social e ética. Em tempos de celular, tudo vira espetáculo. Mesmo quando está errada, a pessoa se filma como se fosse mártir de uma grande injustiça. E o desrespeito se espalha: professores, militares, chefes, pai e mãe — a crise de autoridade alcança cada canto da vida.
Nessas horas, o livro de Juízes ecoa atualíssimo: parece que “não há rei em Israel; cada um faz o que acha certo aos seus olhos”. E, no entanto, existe uma lei silenciosa, a do bom senso, que aponta para algo maior: o temor do Senhor, que nos chama ao respeito e à sobriedade.
Até na academia o assunto virou disputa por vestimentas. Eu nem vou à academia, mas tenho ouvido gente comentar em podcasts: sensualização em excesso, olhares que passam do limite, e a culpa sempre empurrada para o outro. Homens e mulheres, todos nós, precisamos de prudência e pudor. Exibir o corpo não é se valorizar; quase sempre constrange quem está ao redor e empobrece o valor de quem exibe.
Sei que, ao dizer isso, alguns vão rotular: “lá vem o santarrão”. Não é santarrice; é princípio. E não é apenas um princípio bíblico — embora seja —, mas também ético e humano. O Evangelho me lembra que verdadeiro amor coloca o próximo à frente da minha vontade. Em Cristo, liberdade não é licença para qualquer coisa; é poder para escolher o bem, conter a língua, refrear o impulso, honrar o espaço comum.
Quando deixo Cristo reinar, Ele cura minhas medidas por dentro. A cruz reconcilia meu coração com Deus e com o meu irmão; o Espírito Santo me ensina domínio próprio, mansidão, pudor e respeito. Antes de erguer o celular para provar que tenho razão, eu me examino. Antes de vestir o que afronta, eu me pergunto quem posso ferir. Antes de falar alto, eu lembro das cinco palavrinhas simples que dão dignidade às relações.
Sem bom senso, a sociedade adoece — e eu adoeço junto. Mas quando me sujeito ao Rei e amo o próximo, o ambiente melhora, a autoridade volta a ter lugar, e a paz encontra espaço entre nós. Que Deus nos devolva o temor que equilibra a liberdade, e o amor que faz do espaço público um terreno de respeito. Que Ele nos dê um coração que se avalia, para que, em vez de condenação, encontremos vida. Esse é o caminho: arrependimento, fé e prática — luz acesa no meio do barulho do mundo.
