Eu estava aqui, outra vez, me lembrando de um fato ocorrido em 1970. Nasci e me criei em São Paulo, mas o sangue dos meus pais corre da Bahia — Serrinha, Feira de Santana, aquela terra quente de poeira e histórias. Naquele ano, meu pai vendeu uma de suas casas na capital e decidiu voltar para o interior baiano. Eu tinha catorze para quinze anos. Éramos cinco irmãos — três homens e duas mulheres — e partimos juntos.
Foi lá que me deram um jumentinho para montar. Eu não tinha experiência alguma. Meu irmão subiu na garupa e seguimos de uma fazenda para outra por um caminho estreito, com um barranco de um lado e um rio do outro. O jumentinho caminhava firme até que, de repente, empacou. Não foi nem para frente, nem para trás. Tentei mexer, insisti, nada. Impaciente, dei um tapa. Para quê? O bicho deu um pulo; meu irmão voou para dentro d’água. Ele não sabia nadar. Foi um sufoco. Aquilo queimou meu peito de medo e culpa. Nunca esqueci.

Voltamos, e meu irmão chorava. Disse que eu tinha judiado do jumento. Tentei me justificar: “Pai, o bicho parou no meio do caminho; como eu ia saber?” Mas, por dentro, algo já me ensinava: nem sempre a força resolve o que a sensibilidade detecta.
Meu pai contou, então, uma história dele. Um dia, indo para um casamento com um terno de linho branco, bonito, o jumento empacou bem no meio de uma poça. Não seguiu adiante, nem retrocedeu. Sentou no chão. Sujou tudo. Meu pai chegou ao casamento todo manchado. “Jumento é um caso sério”, ele dizia, e eu via que era mesmo.
Ainda assim, lembro-me do contraste que a fé me acendeu: houve um jumentinho — ao lado de sua mãe — que levou Jesus sem causar problema. Jesus, corajoso, montou um animal que ninguém antes havia montado. Só o Filho de Deus. Aquele jumentinho foi mais educado do que a figueira que negou fruto. A criação reconhece o Criador; o coração humano é que, tantas vezes, se fecha.
Aprendi, ali, que quando o caminho fica estreito, barranco de um lado e rio do outro, a pressa e a mão pesada só espalham medo e derrubam quem vai com a gente. Às vezes, Deus usa um jumento para nos frear — não para nos humilhar, mas para nos poupar. A teimosia do bicho pode revelar a minha; o empacar dele pode denunciar minha cegueira. E o salto que assusta pode ser o eco do meu impulso de dominar o que eu não entendo.
Olho para Jesus e encontro a saída. Ele não precisa violentar nada para reinar; Ele reina porque é Senhor. Onde eu ergo a mão, Ele estende a graça. Onde eu forço a marcha, Ele sabe a hora. Eu quero ser como aquele jumentinho que O levou “numa boa”: simples, disponível, pronto para que Cristo passe por mim e alcance outros — e não como a figueira, cheia de folhas e rasa de frutos.
Se, como eu, você já bateu no que apenas tentava te salvar, peça perdão a Jesus. Entregue-Lhe hoje as rédeas. Diga: “Senhor, toma o meu caminho. Onde eu empaco, guia-me; onde eu insisto, quebranta-me; onde eu temo, sustenta-me”. Ele sabe conduzir no lugar mais estreito e transformar susto em salvação. A lembrança de 1970 ainda dói, mas hoje ela me cura. Aprendi — pela mão firme do Pai e pelo passo manso do Filho — que até um jumento pode me ensinar a viver. Amém.
